REPRODUÇÃO

Quando começar os cruzamentos?

Qual a melhor época para iniciar o garanhão e a égua na reprodução? Antes mesmo de se falar em idade e condições adequadas, a pergunta leva à constatação, por parte de veterinários, de que, no manejo reprodutivo dos eqüinos, já não mais podemos reprisar o comportamento sexual natural dos animais, devido principalmente às necessidades comerciais, que impõem maior agilidade e eficiência.

Desta forma, os cuidados devem ser redobrados, já que, com suas ações dominadas pelo homem, os eqüinos estão sujeitos a neuroses, várias delas adquiridas com o manejo inadequado da reprodução. Estas neuroses, como no homem, são fatores estressantes e, segundo o médico-veterinário Eros Biondini, interferem na fisiologia geral e da reprodução e, como agravante, podem interferir na longevidade do animal.


Manejo inadequado durante a reproduç~ao gera neuroses nos equinos, interferindo na fisiologia geral do animal

Machos

De acordo com o médico-veterinário Marc Henry, professor da Universidade Federal de Minas Gerais, a idade conveniente para o garanhão começar sua vida reprodutiva é a partir dos três anos. Mas com o exame andrológico para verificação de sêmen, comportamento sexual e capacidade de monta, pode-se experimentar o animal com idade de 2 a 2,5 anos. No entanto, esses animais devem ser usados com um número limitado de éguas. O garanhão precisa primeiro passar por uma fase de aprendizado e avaliação de um técnico. Se cobriu bem e emprenhou, pode-se colocar mais éguas para a monta.

Mesmo que o garanhão, após passar pelo período crítico de adestramento, esteja apto para a reprodução aos três anos de idade, o cruzamento deve ser iniciado gradativamente. Deve-se apresentar a égua ao reprodutor a cada 48 horas até que ela saia do cio.


O cruzamendo do macho deve ser iniciado gradativamente; deve-se apresentar a égua ao reprodutor a cada 48 horas até que ela saia do cio

O garanhão com fertilidade boa pode cobrir pelo menos uma vez por dia. Garanhões com boa libido cobrem duas a três vezes ao dia. É preciso observar, diz Marc Henry, se o animal está mantendo a disposição e o peso. Sob monta controlada, cobrindo uma ou duas vezes ao dia, o garanhão pode servir a mais de 180 éguas numa estação de monta.

Nem cedo nem tarde

Machos introduzidos muito cedo na reprodução adquirem o vício de ficar agitados rodando nas baias ou correndo ao lado das cercas. Presos ou soltos, esses animais consomem o estritamente necessário para se manterem. São geralmente de pêlo liso brilhante, mas não se desenvolvem na sua compleição física e têm um semblante visivelmente neurótico. São finos, pouco arqueados e galgos.

"É óbvio que o adestramento de animais assim se torna muito mais complicado", diz Eros Biondini. Ao cobrir são afobados, desajeitados, às vezes agressivos com a égua, outras vezes são tímidos. Têm problemas de ereção e de ejaculação. O ato sexual chega a tornar-se um martírio, transformando-se num episódio de neurose banhado de suor.

O garanhão introduzido muito tarde na reprodução pode ou já ter consolidado seu caráter sexual impetuoso ou ter se acostumado com o celibato. No primeiro caso, é necessário grande experiência do seu condutor, por ser forte e robusto e não ter passado pelo período de aprendizado na hora certa. Pode não se subordinar aos comandos, ser agressivo e, nos primeiros momentos, colocar em risco a integridade da égua e do condutor. No segundo caso, do celibato, poderá se tornar aparentemente frio, inicialmente desinteressado, para depois se despertar para a reprodução. Aí também é necessário muita habilidade de quem conduz o animal.

Fêmeas

Quanto às fêmeas, a idade ideal para a reprodução é entre 30 e 36 meses. Não se deve querer ganhar tempo cruzando potras muito novas, com 24 meses ou menos, simplesmente porque estão bem desenvolvidas. Ganhar um ano na reprodução da égua pode significar uma perda maior depois do parto, no desgaste com o aleitamento da cria e com eventuais reflexos na qualidade física e na fertilidade.

As éguas que já pariram deverão ser cobertas no cio do potro, ou seja cerca de sete dias após o parto, desde que se apresentem bem fisicamente e sem qualquer conseqüência do parto.

As fêmeas devem ser muito bem rufiadas por um rufião que não seja o reprodutor. Os garanhões não são indicados para a rufiação por já estarem condicionados ao cruzamento. Diante de uma reação desfavorável da égua, se frustram, ficam neuróticos e agressivos para com a fêmea e quem estiver envolvido no manejo. Uma das vantagens do rufião é que eles se tornam mais habilidosos em cortejar as éguas evitando coices. Por serem mais íntimos com as éguas, fazem com que elas vençam inibições e evidenciem o cio mais facilmente.

As éguas só deverão ser cobertas sob a demonstração inequívoca do cio. Neste caso, elas procuram espontaneamente o macho, urinam naturalmente e têm contrações típicas da vulva, se relaxam e voltam o posterior na direção do garanhão. As orelhas das éguas no cio estão sempre móveis e posicionadas para frente e para cima.

Já as éguas que estão próximas do cio ou mesmo fora dele, podem aproximar-se do focinho do macho, mas emitem gritos nervosos, saltitam no mesmo lugar ou escoiceiam, colocam as orelhas para trás coladas no pescoço, tornam-se agressivas, emitem jatos nervosos de urina e contraem a vulva intermitentemente.

Cortejo é naturalmente necessário

O papel do rufio é importante pos a sua habilidade faz com que as éguas vençam inibições e evidenciem o cio mais facilmente

Na vida selvagem, o cavalo ainda potro é rechaçado naturalmente dos haréns por seus pais. Os mais capazes constituem seus próprios haréns com éguas que não deveriam ser cobertas pelos pais, nas diferentes famílias. Com isso há o momento oportuno e fisiológico para se iniciarem na reprodução. Os haréns não são populosos, giram em torno de 15 éguas. Sendo a égua animal de cio estacional, em pouco tempo todas estarão prenhes logo após o parto. Nessas condições, usando os sentidos e os instintos, o garanhão seleciona e disciplina a ordem de cobrição das éguas, mas cobre a mesma égua várias vezes ao mesmo dia.

A relação sexual dos animais, principalmente nos eqüinos, não difere muito da do homem. Deve haver a disposição dos pares tanto pelo cio da fêmea como pela libido do macho. O namoro, no caso o cortejo, serve para a excitação de ambos. O garanhão que corteja bem, farejando as narinas da égua, emitindo ruídos próprios, mordisca seu pescoço, axilas, antebraço, virilha, úbere e finalmente a sua genitália, consegue melhor parceria da fêmea e melhor segurança para o coito.

Enquanto corteja ele se excita, tem melhor ereção, salta no momento oportuno, consegue melhor posicionamento da égua para a monta e melhor penetração, facilitada pela lubrificação da vulva e vagina com a secreção natural do cio. Quanto mais excitado o garanhão melhor o seu orgasmo, o volume e a qualidade do sêmen ejaculado. Quando bem cortejadas pelo reprodutor, as éguas superam o natural pudor próprio da espécie e descontraem-se, o que contribui para sua fertilidade.

Cavalos despreparados podem não ejacular ou ejacular parcialmente, ou ainda ter eventualmente uma retroejaculação, que é a ejaculação para a bexiga. Estes animais, em forma física ou esgotados sexualmente, podem ser frios, cortejarem mal, demorarem a cobrir e terem comprometida a sua fertilidade.

Cuidados antes e durante a monta

O garanhão que corteja bem consegue melhor parceria da fêmea e melhor segurança para o coito

Onde não há controle cotidiano do veterinário e a estação é conduzida por tratadores, é importante saber com certeza o primeiro dia do cio das éguas. Em geral não há necessidade de cobri-las no 1º e 2º dias do cio. Elas poderão ser cobertas alternadamente a partir do 3º dia até o 7º com muita chance de prenhez. O reprodutor fica com um dia disponível para outra égua e, mesmo havendo acúmulo, eventualmente ele poderá servir a 4 éguas cobrindo 2 a cada dia, uma pela manhã, outra à tarde. Este esquema não é desgastante para o garanhão, sendo aproximadamente o que ele faz na natureza.

Na estação, os animais, machos e fêmeas, deverão estar bem nutridos e com todo o esquema preventivo de doenças e parasitoses rigorosamente em dia. O local da monta deve ser limpo, livre de pó ou sujeira. Em condições normais não há necessidade de se lavar as éguas para cobrir, já que o odor natural delas é excitante para o garanhão, exaltando sua libido.

Mas, dependendo da avaliação do técnico pode-se fazer a higienização dos órgãos genitais do macho e da fêmea antes e depois da cópula para prevenir eventuais contaminações por doenças infecto-contagiosas de uma égua para outra. Após exames retais e nas inseminações artificiais, as éguas devem ser lavadas com água e sabão neutro antes da atividade reprodutiva, com o mesmo objetivo.

Ataque e defesa

Os garanhões deverão ser preparados desde potros a serem conduzidos para o ato da cobrição no cabresto e a respeitar os comandos do condutor, principalmente os de voz. Também pode ser usado o argolão, que exerce efeito semelhante ao do freio em sua boca, moderando a vantagem física do garanhão sobre seu condutor. Nas éguas pouco relaxadas para a cópula e que não estejam aceitando bem o macho podem ser usadas contenções conhecidas como teias cachimbos e aziar.

Comportando-se agressivamente com a égua, os cavalos geram agressividade por parte dela. Eles coiceiam as éguas quando são naturalmente "mau caráter", quando são mal preparados, cruzam pouco ou são usados como rufiões. Assim, os machos se expõem a coices de éguas que não estejam no cio ou que sejam ciumentas com suas crias. Mesmo no cio elas podem se tornar agressivas pelo medo da impetuosidade do garanhão despreparado. Também não é raro éguas rigorosamente no cio escoicearem o garanhão logo após o cruzamento.

O ato de escoicear de alguns machos revela inabilidade ou mesmo medo. Aí praticam a regra da melhor defesa é o ataque, como forma de submeter a fêmea. Embora quadrúpedes, os eqüinos gostam de alguma privacidade na cópula. É comum alguns garanhões apresentarem comportamento agressivo quando têm que cobrir diante de platéia.

O coice, além do ato de morder, é uma forma de defesa dos eqüinos. As éguas se escoiceiam no pasto por causa de um desentendimento qualquer. O coice pode provocar fraturas nos membros e lesões nos órgãos genitais, principalmente no macho. Outras vezes causam hemorragias internas, levando ao sacrifício do acidentado.